Indo em direção à rua encontrei Zé de Dona Maria que nunca mais tinha visto desde que vim pro caldeirão. E logo achei graça, fiquei feliz de vê um compadre e o cumprimentei. Só que não imaginava o que ele ia me falar. Digo, pois nunca menti, e agora sobre a tutela de meu padin Zé Lourenço é que num minto mesmo.   Ele me perguntou, essas perguntas quase afirmando pra ter certeza: “Cumpadre virou comunista?”

Eu não perdi a estribeira porque sou calmo e pelo passado com Zé. E também nunca imaginei ser chamado por uma coisa que eu não conheço. E disse: “Eu nem sei o que é isso direito, só sei que é uma coisa sem Deus. E digo, que onde eu vivo a gente vive é no trabalho e oração. Rezamos a noite inteira pelos pecados do mundo, principalmente quem vive sem Deus, como bicho do mato que se levanta sem nem mesmo fazer o sinal da cruz.”

Mesmo com a resposta Zé continuou, que ele é mesmo bicho teimoso que eu conheço desde novo e não mudou nadinha: “Na cidade tá todo mundo chamando vocês de comunista”.

E eu não entendi porque nos chamavam assim, mas num fiquei calado: “Pois, eu tô rezando por eles mesmo assim, levantando falso. Porque a gente vive sobre os ensinamentos de meu padin Zé Lourenço, e ele disse pra todo mundo ouvir: depois da morte há duas escadas, uma branca e outra vermelha, uma pra cima e outra pra baixo. E quem quiser pegar a escada branca pra cima tem que se arrepender dos pecados e rezar.”

Depois da resposta Zé de Dona Maria ficou que nem urubu na carniça, peneirando, esperando o cheiro da carniça aparecer pra poder por os pés no chão pra comer. Daí ele continuou: “abre o olho cumpadre. Vocês vivem sem coronel. Não tem coisa alguma, é tudo do Caldeirão. E parece que vocês dividem a comida de forma igual.”

E eu falei: “Nisso você tem razão! Lá todo mundo é irmão. Tudo que é produzido é pra todo mundo! De manhã todo mundo vai pros seus afazeres, quem é de roça vai plantar, quem é artesão vai trabalhar com o couro dos bichos, quem é de engenho faz rapadura, na casa de farinha nós temos a goma. Nosso padin Zé Lourenço olha sempre, dá dicas pra melhorar o trabalho e principalmente, faz seu trabalho de beato pregando o reino do céu. E no final do dia, todo mundo pega sua parte dos mantimentos de acordo com o número de pessoas da família.”

E me despedi e segui viagem. Fiquei pensando, porque fazia mal dividir as coisas como irmãos? Isso não tinha explicação para minha cabeça. Só sei que pra mim isso não é ser comunista, é ser cristão, vivendo como Nosso Senhor pregou, mas se querem chamar de comunismo, então só posso me ver como comunista.

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  • Caldeirão de água no deserto – realidades e utopias?.
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