“Mas olha que o sono é morte

Que o sono é morte

A cama é sepultura

É sepultura”

(Canto popular – Ritual de Encomendação das almas – Araponga – MG)

 

Entramos na escuridão da sala preta de ensaio, muito tem se produzido por lá. Nesses encontros, estivemos a lembrar dos que foram e dos que ainda estão aqui, evocando os nossos mortos. Colhemos sinais, gestos, sons, cantos, cores e movimentos. Viemos misturando textos que somam muitas vozes, as nossas, a de José Watanabe, a da Ângela Linhares, a de Sófocles, porque acreditamos que é preciso reviver a história, contar de novo. Esse recontar faz com que possamos encarar o mito de Antígona como uma questão para além do desejo da personagem de enterrar seu irmão. Vemos Antígona como um regaste a memória da história esquecida, a consciência que traz a tona o direito ao rito de sepultamento com base em fatos do passado e outros tão presentes e tão próximos de nós. Aqui tentamos várias conexões, como os massacres históricos silenciados, desde o caso do sitio Caldeirão de Santa Cruz do Deserto no Cariri, aos atuais e ininterruptos assassinatos a comunidades indígenas. A questão se amplia quando também pensamos sobre corpos insepultos ainda não revelados, quando pensamos nos familiares, nas mães que buscam suas vitimas desaparecidas. Há muito ainda que cavar.

Temos investigado a morte como cerimônia, ritual, tradição. Vamos colhendo inspirações de ritos e cantos fúnebres, instrumentos musicais, figurinos, adereços, objetos e outros signos que somam referências localizadas no Brasil, em especial o estado do Ceará e região nordeste, em outros países da américa latina e de outros continentes. Paralelo e este trabalho que encaminha parte do desenho para encenação, continuamos os encontros de preparação vocal com Consiglia Latorre. O treinamento tem avançado na busca do engajamento voz e corpo, reconhecendo particularidades, dificuldades, imagens e sensações de descoberta do som e do canto. Temos experimentado práticas de fortalecimento e resistência vocal, exercícios que exploram níveis de extensão, espaços de ressonância, respiração e controle de ar junto a exploração de sonoridades e vocalizes numa descoberta do que a preparadora chama de “lixo da voz”, considerando tudo que a voz é capaz de produzir. A investigação segue por um caminho técnico, mas, também sensitivo de encontro ao ser musical em si.

Nessa reunião de encontros, práticas, referências, inspirações, desejos e tudo o mais que temos produzido, chegamos a um primeiro esboço de roteiro pensado para a abertura de processo no rotas de criação. Nele já soma muito do que viemos experimentando, acreditando numa cena aberta que além do texto e do documento, se constrói através do corpo, da voz, do símbolo e da subjetividade. Seguimos buscando outras fretas de luz.

Loreta Dialla

 

Lab. de Artes Visuais

  • 051/Grande Circular
  • Isolamento Compulsório
  • Novas Abordagens Perceptivas do Real
  • Sonho causado pelo voo de uma abelha ao redor de uma romã, um segundo antes de acordar

Lab. de Audiovisual

  • Ocre
  • Estrada Aberta
  • Tempo de matar cachorro
  • Telma
  • Perdido
  • 7 CAIXAS

Lab. de Dança

  • 233 A, 720 Khalos
  • Afrontamento
  • Afrontamento
  • Corpos Embarcados

Lab. de Música

  • Sila Crvs A.O.A
  • Iracema Som Sistema
  • Ode ao Mar Atlântico
  • Orquestra Popular do Nordeste

Lab. de Teatro

  • Caldeirão de água no deserto – realidades e utopias?.
  • DESPEJADAS
  • Nossos Mortos
  • O retorno a Juberlano