Sejam bem-vindos à página do projeto Sila-Crvs A.O.A. (Sila Cruz) no blog do Porto Iracema das Artes. No mês de agosto, com a criação deste ciberespaço, iniciamos o nosso “diário de bordo”, que conterá os nossos relatos durante o processo de criação musical na instituição. Contudo, antes desses relatos, precisamos explicar o que é o projeto Sila-Crvs A.O.A.

Foto: Alex Hermes

Em Janeiro de 2017, nascia timidamente dentro da amizade e dos pensamentos compartilhados entre Alvaro Ximenes e Issac Omar, o esboço de um projeto musical sem grandes pretensões (evitamos o termo “banda” – explicaremos em outra postagem).

Sila-Crvs A.O.A. é um anagrama do primeiro nome dos seus dois criadores. É um acordo selado entre amigos e não tem nenhuma intenção de comunicar algo a mais ao grande público – seu único segredo é a força dessa amizade e cujo significado apenas ambos conhecem, obviamente.

Há oito anos Alvaro é Dead in Dump, um artista muito bem resolvido na cena musical Eletrônica/Experimental; manipulando todos os instrumentos musicais que os softwares podem lhe oferecer. Um “PC-Man” ele diria, a última versão do ente “músico” com as felicidades/facilidades e preconceitos que um “DJ” carrega.

Issac é um anônimo, sem relevância ou identidade artística. Thereminista desde 2013, tocando discretamente em seções particulares para amigos seletos.

Nessa amizade de dez anos, oito anos são de ausências. E foi justamente em janeiro que Issac, aquele que sumiu, resolve aparecer só para ver o que restou depois do silêncio de ambos…Ah! Se pudéssemos dizer algo sutil e belo sobre aqueles dias de janeiro…exporíamos toda força e mistério que reside no projeto; explicaríamos a indecifrável mente das emoções e faríamos uma apostila em pdf, disponibilizando as rotas que traçamos para desenterrar o corpo profanado dos nossos sonhos na cova de dois adolescentes (nós mesmo, no fundo da memória).

Tínhamos certeza que desse encontro só sairia uma coisa gótica, porque um dia fomos dois pirralhos de cabeças raspadas; escutando pós-punk em trapos negros e calçando coturnos maiores que os nossos pés. Isso há oito anos atrás… Só Alvaro ficou na subcultura e mais, sofrendo influências do movimento Queer e dos pancadões Electro das boates, adentra na Glam/Queer “Banda Glamourings”. E Issac, que já não acha mais tanta graça naquilo tudo, virou o chato da turma. Um chato adorável. Com seu gosto para música chata dodecafônica e ultra cafona.

Como nos unimos? Ainda estamos processando a resposta…

“Witch-house?”. Disse Issac a Alvaro num último suspiro e a tentativa de dar rótulos ao que estava acontecendo morreu ali. “Deixamos rolar… nos ensaios tentaremos uns improvisos e depois veremos o que acontece”. Essa confusão de influências levamos para o Sila – para não fazer nada daquilo que escutamos com rótulos, mas pelo prazer de travar esses diálogos instrumentais que nos é característico, às cegas.

Até aqui Sila-Crvs é sobre música e reencontro de amigos. E qual a importância disso? Nenhuma para terceiros… Eis que Issac é um bom leitor de poesias e apenas concordou em participar do edital da Secult-Ce se for para dar vida e voz às poesias do cânone cearense, de preferência em seu período mais arcaico e para louvar os seus poetas mais esquecidos.

Entre tantos críticos literários e materiais disponíveis sobre o assunto, Issac pegou os tomos de Sânzio de Azevedo para dar-lhe o prumo. Em resumo: Nós do Sila-Crvs A.O.A. musicaremos poesias que vai da primeira manifestações literária no estado, os “Oiteiros”, até o início do Modernismo Cearense, em termos de música eletrônica experimental.

E já que tocamos no edital…

Alvaro, certo dia, aparece com uma proposta para Issac:
— Ei, o que tu acha do Porto Iracema das Artes?
— Não entendi…
— Tá rolando um edital da Secult-ce com o Porto. Abriram vagas para os laboratórios de criação. Tem vaga pra música.
— Podemos ver isso. Do que precisam?
— Músicas autorais, a escritura de um projeto, um canal que divulgue esse material autoral na internet e um currículo…
— Currículo como artista só o teu, Alvaro. Vai no teu nome e o resto cuidaremos.

Em duas semanas criamos algumas trilhas bem simples, bem minimalistas. Gravamos uns vídeos na casa do thereminista, com cautela para não invadir a sua privacidade, e desses extraímos os áudios do nosso “EP”.

Publicamos além das músicas os vídeos.

Alvaro divulga-nos na internet e Issac escreve o projeto, já que não gosta da internet. Estávamos inscritos.

Poucos meses passaram e recebemos a notícia por e-mail: “Parabéns! Etc… etc.. Vocês passaram para fase final do processo seletivo para o Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes… etc.. etc… Audição. etc… etc…”

A final do processo aconteceu em maio e consistia em duas etapas no mesmo dia. A primeira, entrevista com os três jurados convidados pelo Porto: Ana Garcia, Marcus Preto e Cacá Machado e a coordenadora do Laboratório, Mona Gadelha. A segunda, uma apresentação pública no anfiteatro do Dragão do Mar.

O que podemos dizer a respeito? O que, basicamente, dois amadores anônimos que jamais frequentaram um estúdio e gravação e que possuíam alguns poucos vídeos no Youtube e um “EP” captado de um celular, poderiam, se pudessem, discursar após um encadeamento mágico de eventos abrindo portas duplas e pesadas, com direito a tapete vermelho para o destino passar de mãos dadas com a divina providência?

Alvaro arrastava-se obscenamente de alguma viela suja, cheirando a látex e com muito amor para dar, para triscar seus frágeis calcanhares no anfiteatro. O que ele poderia dizer? E Issac, que fazia do theremin um instrumento de ofício religioso, em sigilo. O que ele pensou quando soube que iria tocar para mais de doze pessoas? Será que ele pensou?

“(…) estamos dentro do
Laboratório ocupando
uma das quatro vagas”.

Para dois ignorantes no ramo da música, estar ali, dividindo o palco com quem faz música profissionalmente (e vive disso), com três jurados importantíssimos dessa indústria, juntamente com uma das vozes mais belas da cena local, falamos de Mona Gadelha, assistindo-nos num anfiteatro, já era um ganho. E quando já estávamos satisfeitos, veio a resposta àquela apresentação: estamos dentro do Laboratório ocupando uma das quatro vagas.

Foto: Luiz Alves
 

Voltemos para agosto, agora no Porto. Poucos dias antes da criação desse blog estávamos no pátio para homenagear um fenômeno astronômico, parcialmente visto por essas paragens, em meio à lonas negras e cadeiras de bistrô deitadas na quadra. Ao fundo, um container com uma abertura dava a impressão de ser uma caverna contemporânea onde um ermitão tecnológico escondia-se, saindo apenas para louvar o eclipse solar com a sua harpa etérea, o theremin. Assim fora flagrado pela lente de Mona Gadelha e jogado em seu Instagram.

Issac, do @silacrvs toca para o #eclipse @portoiracemadasartes #ceará #fortaleza #theremin

A post shared by Mona Gadelha (@mona_gadelha) on

Em algum lugar ao norte do mundo os céus escureciam e a lua no Signo atacava feito um Leão nos olhos de Issac, que acordou com conjuntivite. “Alvaro, manda uma mensagem pro Leo, liga pra Mona… agiliza uma ação: vamos tocar a Bachiana n5 do Villa-Lobos às 16:30 para o eclipse”.

Issac, Alvaro e Gabriel no pátio do Porto Iracema das Artes tocando um cover alteradíssimo do Villa que deixaria qualquer ortodoxo de cabelo em pé. Como se tentando compreender, ao mesmo tempo, o remix “surpresa” que Gabriel produziu na hora (confundindo o thereminista, pois camadas da música ao serem remixadas ecoavam e repetiam-se em loop e com direito a “reduções” do ritmo da música, desacelerando-o; e o que, em tese, deveria orientar, provocou um desencontro estranhíssimo no juízo de quem estava presente) e os supostos chamados de uma deusa, Issac manipulava o theremin sem se dar conta das câmeras que o filmavam e das caras expressões de surpresa: júbilo ou desagrado; e os outros dois… camuflados, longe e rindo! Achamos que todos gostaram de alguma forma.

“É, estamos na aurora das nossas vidas”, este pensamento soava como um mantra durante a meditação que antecedeu a performance. Somos grato ao Porto.

Quanto ao terceiro membro, Gabriel, isso é pauta para a próxima postagem…

Lab. de Artes Visuais

  • 051/Grande Circular
  • Isolamento Compulsório
  • Novas Abordagens Perceptivas do Real
  • Sonho causado pelo voo de uma abelha ao redor de uma romã, um segundo antes de acordar

Lab. de Audiovisual

  • Ocre
  • Estrada Aberta
  • Tempo de matar cachorro
  • Telma
  • Perdido
  • 7 CAIXAS

Lab. de Dança

  • 233 A, 720 Khalos
  • Afrontamento
  • Afrontamento
  • Corpos Embarcados

Lab. de Música

  • Sila Crvs A.O.A
  • Iracema Som Sistema
  • Ode ao Mar Atlântico
  • Orquestra Popular do Nordeste

Lab. de Teatro

  • Caldeirão de água no deserto – realidades e utopias?.
  • DESPEJADAS
  • Nossos Mortos
  • O retorno a Juberlano